Terceiro ano em Marrocos .. Este foi de longe a melhor viagem que fiz ...
Ainda era de noite quando saímos de casa em direção a terras de sua majestade Maomé VI rei de Marrocos. É sempre um prazer poder desfrutar das paisagens de Marrocos em boa companhia e em “2 Wheels” pelo que temos tentado organizar uma viagem para Sul pelo menos uma vez por ano.
Às 04:30 sai de casa, coloquei a moto já totalmente carregada a trabalhar e dei inicio a mais uma aventura por terras Marroquinas. Os colegas de viagem Cláudio (caloiro) e o Ricardo (aluno do 3º ano) esperavam por mim (ou eu por eles) na estação de serviço da Cepsa na A22 em direção a Espanha.
A moral era alta, esperava-nos um trajeto de cerca de 378 km até Tarifa onde iríamos apanhar o ferry da AML em direção ao porto de Tanger Ville.
Chegamos a Sevilha por volta das 08:00, em plena hora de ponta na capital da Andaluzia. Lentamente, fomos serpenteando entre os carros tanto pela esquerda como pela direita, sim tudo valia para não perdermos o barco que nos iria levar até ao continente Africano.
Fizemos somente 2 paragens para abastecer as montadas sendo que na ultima tivemos de compor a KTM que já se estava a desfazer em peças. A barra que suportava o GPS partiu-se pelo que tivemos de engendrar uma artimanha com as peças disponíveis para fixar o dito no guiador junto do espelho. Usamos meia dúzia de braçadeiras de serrilha que o Claudio tinha com ele e lá conseguimos que o GPS se aguentasse durante toda a viagem chegando até casa são e salvo e com a missão cumprida (mais sobre o GPS do Cláudio à frente neste texto).
O porto de Tarifa era novo para nós, no entanto as primeiras impressões foram positivas, o pouco movimento, a facilidade na obtenção dos bilhetes e no passagem pelo controlo de passaportes contribuiu para uma experiência agradável.
No estreito de Gibraltar o mar estava calmo pelo que a viagem fez-se sem sobressaltos (ao contrario do ano passado que saltos não faltaram) e, 1 hora depois da partida estávamos a atracar em Tanger Ville.
A saída do porto foi rápida pelo que ficamos bastante agradados por termos escolhido o trajeto Tarifa-Tanger Ville em vez do tradicional Algeciras-Tanger Med.
Depois de trocar Euros por Dirham ainda dentro do porto e de comprarmos um cartão SIM para o Cláudio (eu e o Ricardo optamos pelo eSIM internacional no entanto esta escolha veio a revelar-se péssima) demos inicio ao track que nos levaria a Chefchaouen a famosa vila Marroquina onde a maior parte das casas são pintadas de azul.
Para a tarde do dia 01 tínhamos feito 2 tracks diferentes sendo um mais “retorcido” passando por caminhos mais rurais e secundários e um outro utilizando as estradas Nacionais em teoria mais rápidas. Como o barco não se atrasou e a saída do porto foi bastante célere optamos pelo track nº 1 que nos levaria ate Chefchaouen por caminhos mais remotos e secundários. Depois de um pequeno engano do “tour leader”, desta vez eu próprio que nos fez andar para trás cerca de 7 km lá apanhamos o track correto. Não tínhamos ainda andado 2 km quando paramos para almoçar, vi pelo canto do olho um restaurante de beira de estrada e resolvi parar para ver o que serviam. Foi-nos servido uma magnifica tagine de frango que estava divinal sendo desde já classificada como a melhor que já comi em Marrocos, e sim já comia algumas.
Seguindo caminho depois do repasto fomos brindados durante todo o trajeto por magnificas paisagens de montanhas e vales a perder de vista, passamos por diversas aldeias onde os populares nos olham com um misto de admiração e espanto.
Depois de inúmeras curvas chegamos ao destino do dia, cansados mas satisfeitos, a moral estava em altas até termos descoberto que o nosso alojamento não tinha estacionamento e que teríamos de deixar as motas a várias dezenas de degraus e algumas ruas de distancia.
Para não haver dúvidas de onde ficava o Riad e como lá se chegava mandamos o Cláudio (o mais atleta do grupo) com um guia local que prontamente e a troco de 50 dirham o levou até ao local da pernoita.
Depois das motas parqueadas em segurança (achámos nós) seguimos em direção ao Riad Tassili onde fomos recebidos com chá e biscoitos.
Depois de.um merecido banho saímos para explorar as ruas de Chefchaouen, tirar umas “pics” e jantar. Para jantar encontramos um lugar pequeno, fora da praça principal que achamos que seria uma opção menos turística, mais tradicional, e não estávamos errados … comemos à da Sofia e estava TOP.
A alvorada estava marcada para as 07:30 para tomarmos o pequeno almoço às 08:00. Para o pequeno almoço tínhamos pão, manteiga, Baghrir*, Rghaif**, leite, cafe, mel, manteiga e uma omelete feita na Tagine ... enfim um bom começo de dia. Eu pessoalmente sou perdido por Rghaif, regada com mel, acompanhada por um café de filtro é de comer e chorar por mais. Felizmente este pequeno almoço é regra geral em Marrocos ou pelo menos por onde temos andado, seja mais rico ou mais pobre somos brindados diariamente com o mesmo tipo de produtos.
De malas prontas, fatos vestidos e botas calçadas avançamos pelas ruas desertas de Chefchaouen, ruas essas que no dia anterior transbordavam de vida e agora pareciam adormecidas, sem que se avistasse vivalma.
Encontramos as motas em segurança onde as tínhamos deixado, carregamos a bagagem ligamos os motores e demos inicio ao 2º dia de viagem.
Não saímos de Chefchaouen sem antes tirar uma foto com 2 senhoras locais muito simpáticas que se encontravam à espera dos turistas numa rotunda à saída da cidade.
Algures a meio da manhã depois de termos ultrapassado dezenas de jeeps Portugueses que rumavam a sul (uma constante durante esta viagem), termos cruzado montanhas e vales o Cláudio que ia na frente com a função de nos guiar e de garantir que seguíamos o track pré-estabelecido desviou o olhar do GPS por momentos o que fez com que falhasse um cruzamento. Quando nos apercebemos resolvemos aproveitar a paragem para uma necessidade fisiológica e para esticar um pouco as pernas.
A estrada de terra onde paramos por sorte ia dar à estrada de asfalto que tínhamos perdido uns km atrás tal foi a pontaria. Cheios de confiança nas nossas montadas e habilidades (poucas) para o off-road enveredamos pela dita pista. Eu e o Ricardo não tivemos dificuldade em progredir já o Cláudio que resolveu antes de sair de Portugal montar na KTM uns Batalax AT41 em vez dos Mitas Enduro Trail que eu lhe tinha recomendado patinou um bocado na pedra solta dificultando assim a progressão por esta pista.
Já no alcatrão continuamos rumo à Sul. O destino do dia seria a povoação de Zaida já no sopé da cordilheira montanhosa “Atlas”.
Pelo caminho passamos pela floresta dos cedros para dar comida aos macacos e por Ifrane a cidade conhecida como a Suíça Marroquina.
Uma boa parte do traçado do dia já era nosso conhecido (meu e do Ricardo) no entanto as magníficas paisagens Marroquinas não deixam de nos surpreender e é sempre um prazer revê-las.
Chegamos a Zaida já o sol se estava a pôr-se no horizonte. O Hotel Palace não tinha nada de palácio mas tinha uma “garagem” para as motas o que é sempre aconselhável.
Combinamos jantar com uns amigos que por acaso estavam também eles rumo a Sul (in 4 wheels) e que por acaso também eles iam ficar a dormir em Zaida.
O ponto de encontro era na rua principal junto aos fogareiros, nenhum de nós sabia onde ficava, no entanto bastou sair do hotel e andar 100 m para darmos com os ditos.
O jantar estava literalmente pendurado no teto do “Restaurante”. A 5 metros da mesa onde nos sentamos estavam penduradas várias carcaças de animais (vitela, ovelha e talvez cabra). Serviram espetadas de vitela e kafta***, para acompanhar veio uma salada de tomate bem temperada.
Os nossos amigos tinham trazido uma box de vinho tinto e por já serem conhecidos do dono do estabelecimento puderam degustar e partilhar connosco.
Bem comidos e bebidos despedimo-nos tendo combinado jantar no dia seguinte em Merzouga uma vez que as nossas rotas se iriam cruzar novamente.
Dormi sozinho, um quarto só para mim, dormi bem e acordei restabelecido e pronto para mais um dia de aventura.
Tomamos o pequeno almoço tradicional no último piso do Palace com vista para o Atlas onde se podia ver a neve nos picos mais altos.
Depois da rotina diária de empacotar tudo nos sacos e vestir o equipamento dirigimo-nos à “garagem” para encontrar as meninas sãs e salvas, prontas para mais uns km.
O destino do dia seria Merzouga vila situada junto à duna do Er Chebi, destino já nosso conhecido (meu e do Ricardo) no entanto o trajeto seria mais uma vez um pouco diferente.
Mais uma vez as paisagens durante todo o trajeto não desiludiram, sempre grandiosas e sempre magníficas.
Pelo caminho resolvi tomar a liderança e fazer umas pequenas alterações ao trajeto de forma a explorar alguns caminhos mais secundário e passar por dentro de algumas aldeias.
Primeiro desvio, tudo bem, interessante sem ser nada de espetacular tendo este retomado o asfalto junto à um café onde aproveitamos para tomar o expresso da praxe.
Segundo desvio, atravessamos uma linha de água, percorremos alguns km em pista até que, olho para trás e não tinha ninguém na minha linha de vista. Paro a moto e sou de imediato abordado por uns miúdos a pedir bolos, dinheiro .. qualquer coisa .. o normal por estas paragens.
Passam-se 5 min, 10 min, e nada até que decido voltar para trás já a pensar no pior .. alguém caiu .. percorro +- 1 km e encontro o Cláudio são e salvo .. pergunto pelo Ricardo .. “anda a apanhar cenas do chão parece que a top case se abriu” .. passados 5 min ou 10 min chega o Ricardo ao pé de nós e diz .. “perdi a escova de dentes …”
Sem mais demora seguimos viagem, segui na cauda do plutão e parei mais ao menos no mesmo local onde já havia estado para dar um pacote de bolachas a um grupo de miúdos que por aí andavam. Cerca de 1 km depois já estávamos novamente parados, tínhamos de cruzar um ribeiro através de umas pontes em madeira com um ar super instável. Na margem oposta estava um motociclista com a mota deitada no chão que tinha tombado á momentos ao tentar cruzar a segunda ponte. Pôs-se de pé com a ajuda de um local seguiu viagem. Nós ao vermos o espetáculo e com algum receio que nos acontecesse o mesmo (mais o Ricardo e o Cláudio do que eu), resolvemos voltar para trás .. infelizmente não voltamos a ver a escova de dentes do Ricardo que ficou para sempre perdida em Marrocos.
De volta a estrada principal e sem mais desvios mas com algumas paragens para a ocasional foto chegamos a Merzouga.
Depois do check-in no Riad Ali marcamos junto do proprietário um passeio em moto 4 pelas dunas, tínhamos 45 min até nos virem buscar, tempo suficiente para tirar o equipamento vestir uns canções e dar um mergulho na piscina para arrefecer o motor e tirar o pó.
Na hora marcada apareceu no Riad um local com um jeep para nos levar ao local onde estavam as motos à nossa espera. Arrancamos atrás do guia em direção as dunas mais próximas não antes de nos terem sido dadas algumas indicações de segurança “sempre importante especialmente para quem nunca andou de mota ... enfim”.
A moto 4 era um bicho estranho para o Cláudio que nunca tinha andado, para mim e para o Ricardo seria uma estreia nas dunas.
Passeio top top .. ao fim de 10 minutos já estávamos todos ambientado as montadas e a curtir milhões as dunas.
De volta ao Riad, demos mais um rápido mergulho na piscina, tomamos um ainda mais rápido duche, pegamos nas montadas e dirigimo-nos para o El Touareg onde nos iríamos reencontrar com Délcio e o resto da malta dos 4x4 para jantar.
Tive direito a uma cama de casal (sendo que o quarto partilhamos entre os três) só para mim o que foi sinónimo de uma noite bem dormida. O pequeno almoço era bufete recheado com as iguarias a que já estamos habituados nestas viagens pelo Reino de Marrocos.
Saímos relativamente cedo e já estavam perto de 30°, o dia ia ser quentinho por aquelas bandas no entanto nós tínhamos rota definida para Norte em direção às gargantas do Todra parando obrigatoriamente na dita prisão Portuguesa (Gara Medouar) para ver a vista.
A estrada que nos levou até Tinghir era desconhecida para mim e para o Ricardo no entanto mais uma vez Marrocos não nos falhou com paisagens deslumbrantes.
Em Tinghir paragem obrigatória para a foto do oasis e já que eram horas de almoço para uma bela tagine num restaurante / alojamento mesmo junto ao miradouro.
Desta vez nas gargantas do Todra estávamos decididos em seguir para Norte apesar do nosso guia de à 2 anos nos ter dito que não era possível e nos ter feito voltar para trás o que para mim é sempre de evitar.
Depois das gargantas foi-nos revelada uma estrada de asfalto muito degrado mas com um traçado top top sempre junto a linha de água no meio de montanhas imponentes.
A dormida era a Norte do Dades uns bons km antes (norte -Sul) da estrada sinuosa e altamente divulgada nas redes sociais por quem visita esta zona do país.
Este dia foi marcado pelo apagão em Portugal, pelas 13 h falei com a minha esposa que me disse que Portugal estava às escuras e que os telefones não estavam a funcionar bem .. depois desta conversa só voltamos a falar perto das 21 h .. eu confesso, estava um pouco ansioso e apreensivo, sentia-me impotente por não poder apoiar a minha família .. estávamos separados por uns bons 1500 km de distância.
Em Marrocos tudo tranquilo, não se passava nada, havia luz e telemóvel e as noticias corriam à velocidade da luz pois por onde quer que parasse-mos mesmo os locais sabiam que Portugal e Espanha estavam às escuras.
O Hotel era bonzinho, situava-se no meio das montanhas sem um grande povoado por perto, pelo que as opções para jantar eram Hotel ou Hotel.
A piscina tinha a água tão gelada que parecia as praias do norte de Portugal, foi entrar dar duas braçadas e sair em direção aos duches que por acaso tinham agua quente.
Depois de um jantar a modos que diferente, sopa com sabor a Marrocos, carregada de especiarias, uma entrada esquisita mas ate saborosa e uma banal carne com cogumelos fomos para a caminha esticar o esqueleto e tentar falar com as famílias.
Saída do Hotel pela fresca, como já se tinha tornado habito nesta viagem, o destino do dia seriam as famosas cascatas de Ouzud, sendo que para lá chegar teríamos de rumar a Sul para depois voltar a subir em direção a Norte.
Tínhamos pela frente talvez o troço mais complicado desta viagem, um traçado desconhecido meu e do Ricardo e com promessa de uma longa incursão em fora de estrada, onde só deveríamos passar por pequenas aldeias.
Com receio de não termos combustível suficiente não para alcançar o destino mas para voltar para trás caso o traçado se tornasse demasiado complicado para a nossa falta de experiência em offroad pelo que enchemos os jerricans que cada um tinha levado.
Logo no inicio ainda não tínhamos feito 20 km tivemos de alterar a rota pois o traçado que tínhamos desenhado no GPS estava a levar-nos para o leito de uma ribeira com bastante pedra solta o que para as nossas montadas e para o nosso “kit unhas” não era fazível.
Continuamos assim no asfalto até voltarmos a encontrar mais à frente o traçado originalmente planeado sendo que ai sim não hesitamos em segui-lo.
Paragem rápida para café numa tasca onde estavam também outros motards parados no entanto e pela primeira vez desde que vimos para Marrocos entramos no estabelecimento, olhamos em redor e saímos sem tomar café. O aspeto do dito café era mau e o café propriamente dito feito numa cafeteira com uma água de qualidade duvidosa era receita certa para um desarranjo intestinal.
Seguimos viagem mas não tardou a termos de inverter a marcha novamente, mais uma ribeira que certamente para pilotos mais experientes e talvez com outro tipo de mota seria uma brincadeira de criança para nós Motards pouco experientes nestas andanças e com motas pesadas e cheias de bagagem se podia transformar rapidamente num pesadelo pelo que optamos por retroceder.
Uns poucos km mais à frente retomamos o troço e já não nos desviamos mais deste até à chegada às cascatas.
Mais uma vez Marrocos não nos deixou mal e presenteou-nos com paisagens de tirar o fôlego e estradas com tudo um pouco, curvas, retas, offroad, asfalto novo, asfalto degradado, basicamente tudo a que tínhamos direito.
Este foi talvez o melhor dia de sempre em Marrocos ...
Depois de instalados no Hotel que ficava mesmo em cima das cascatas decidimos sair a pé para explorar a zona e procurar um sitio para jantar. Para jantar o que encontramos ?? Tagine claro ..
Saída das Cascatas de Ouzud em direção a Mazagão, para trás ficava o Atlas e a vontade de voltar em breve.
O troço do dia tirando os primeiros km foram praticamente sempre a direito, retas intermináveis e até um pouco aborrecidas não fossem os pequenos desvios que íamos fazendo para visitar pequenas aldeias que iam surgindo ao longo da estrada.
O Cláudio resolveu sair da estrada e navegar à vista sem seguir o troço pré-definido e meus amigos posso dizer que foi um excelente desvio onde andamos mais uma vez em estradas de terra batida e pedra por entre campos cultivados .. muito bonito e entusiasmante tenho de confessar.
Chegamos relativamente cedo a Mazagão, fizemos cerca de 300 km mas sempre em asfalto e a direito pelo que não demoramos mais que 4 a 5 h mais o tempo do almoço.
O almoço esse foi mais uma experiência de beira de estrada bem sucedida, pagamos pouco, comemos bem e mais importante sem desarranjos .. eheheh
Em Mazagão deambulamos pelas ruas junto ao mar tiramos umas fotos da praxe. Para jantar pedimos indicações à jeitosa da receção do hotel e fomos para a um restaurante bastante típico com musica ao vivo (horrível mas era ao vivo) não muito longe do hotel.
Depois de jantar fomos até à praia, tiramos mais umas fotos na praia e seguimos para o Hotel.
O penúltimo dia desta viagem tinha como destino Rabat a capital do reino de Marrocos. Depois de passar por aldeias perdidas no meio do Atlas, Rabat parece mais uma capital Europeia do que uma cidade Marroquina, muito civilizada, com edifícios modernos, metro de superfície e muitos outros atributos normalmente presentes em algumas das mais sofisticadas capitais da Europa.
Saímos de Mazagão pela manha depois dum belo pequeno almoço que não foi top mas serviu para matar o ratito que tínhamos no estômago. O plano era fugir da muito movimentada N1 e claro não entrar na A1 pelo que fomos rumando a Norte sempre junto a costa.
Depois de alguns enganos e caminhos sem saída lá começamos a rumar a Casablanca onde iríamos passar pela mesquita, uma das maiores de África para tirar a pic da praxe.
Uns km antes de chegarmos a Casablanca apanhamos um dos maiores sustos que um viajante "on2wheels" pode apanhar. Paramos para beber um café na beira da estrada num “spot” com muita boa pinta no entanto quando íamos para voltar à estrada a KTM não quis funcionar, nada, não dava sinal algum.
Completamente em stress, preocupados e já a pensar como haveríamos de sair dali começamos a tentar perceber o que se poderia estar a passar usando o bom e infalível método de tentativa erro para despistar as várias teorias.
Ao fim de algum tempo e depois de termos tentado mudar a pilha da chave e dar encosto com a boa e fiável T7 resolvemos testar os fusíveis um por um. Ao colocarmos o último fusível de volta no seu lugar a KTM acordou do sono pesado em que se encontrava e sem demoras fez-se ouvir o bloco de 1290 CC.
Aliviados montamos e seguimos caminho até à mesquita de Casablanca onde paramos à patrão numa rotunda para tirar a bela da foto.
Com o sentido de dever cumprido e já com alguma fome decidimos seguir caminho e procurar um tasco para comer qualquer coisa.
A saída de Casablanca que aparentemente seria simples, seguindo a estrada sempre junto ao mar pela marginal tornou-se um pesadelo de cerca de 2 h devido a uma manifestação e uma série de estradas cortadas.
Acabamos por dar utilidade às nossas "Adventure Motorcycles" e fizemos tudo o que o código da estrada proíbe (passeios, vias de tram .. ) em Portugal mas que em Marrocos acaba por ser natural.
Finalmente nos arredores de Casablanca já livres do transito infernal paramos na beira da estrada numa espécie de quiosque onde comemos uma "sandocha" top top.
Depois de repormos as energias seguimos para o hotel marcado em Rabat sempre pela marginal (mais uma vez depois de alguns enganos e vias de sentido proibido) junto ao mar.
Assim que nos instalamos saímos para explorar a zona velha dentro das muralhas e a medina, fizemos algumas compras e jantamos num restaurante algures.
Durante o jantar debatemos vários assuntos, entre eles o facto de não temos barco para voltar à península Ibérica no dia seguinte conforme previsto. Ficar em Marrocos mais um dia não era opção especialmente porque a minha querida esposa fazia anos no dia seguinte ao dia previsto para o nosso regresso.
Desta vez tínhamos optado pelo porto de tarifa para fazer a travessia e aparentemente (estamos sempre a aprender) os barcos que fazem a ligação entre Tarifa e Tanger Ville são mais pequenos pelo que basta haver um pouco de mau tempo no canal ficam em terra.
Os barcos que fazem a ligação de Tanger Med para Algeciras são maiores e estes sim estavam a funcionar pelo que depois de debatermos as opções decidimos que na manhã seguinte iríamos sair direitos a Tanger Med e tentar a nossa sorte.
Mais uma vez o pequeno almoço não desapontou, não me canso de dizer que adoro as Baghrir e as Rghaif no entanto desta vez não tivemos muito tempo para desfrutar do mesmo pois tínhamos de carregar as motos e sair rumo a Tanger Med na esperança de conseguir trocar o bilhete e arranjar um lugar no barco que nos levaria a Algeciras.
O Ricardo que durante toda a viagem (com exceção do primeiro dia) foi o primeiro a arrumar as tralhas na moto no entanto desta vez nunca mais se despachava, logo hoje que tínhamos de chegar a Tanger Med antes das 11 h da manhã.
O último dia é sempre Autoestrada pois temos um horário a cumprir para apanhar o barco no entanto somos os únicos preocupados com o horário pois os barcos nunca saem a horas especialmente em Tanger Med.
No porto a troca do bilhete foi muito fácil não houve qualquer questão por parte do funcionário da bilheteira e avançamos de imediato pelos vários controles.
A passagem no raio X demorou uma eternidade, o barco deveria ter saído às 11:30 no entanto às 13:30 ainda não tínhamos passado pelo raio X.
Quando finalmente chegamos à zona de embarque o barco não estava lá, ainda não tinha chegado pelo que esperamos em fila e na conversa com outros motociclista que ali estavam na mesma situação que nós pelo menos mais 1 hora.
O barco chegou por volta das 15 h cheio de camiões, carros e motas, até que todos saíssem correu pelo menos mais 1 h. Quando finalmente deram ordem de embarque para as motas (as primeiras que embarcam) rapidamente concluímos que o barco não estava preparado para receber tantas motas e que o pessoal não tinha formação adequada para cintar as mesmas de forma a que estas não mexessem durante a travessia.
Nos já não éramos só três agora éramos uns 30 todos juntos pelo mesmo propósito fazer com que o pessoal de bordo cintasse as motas de forma a que estas chegassem sem danos a Algeciras. A tarefa mostrou-se mais difícil do que aparentava não só pela barreira linguística mas também pela falta de formação e meios disponíveis.
Não muito contentes com o resultado da amarração das montadas, mas conformados resolvemos subir a cabine e tentar no bar pedir alguma coisa para comer e beber, uma vez que ainda nenhum de nós tinha almoçado e o relógio já marcava 17 h.
Em Algeciras tinha-se formado uma “mega” fila para passar o controle de passaportes, o dia já ia longo e ainda nos esperavam 4 horas de viagem até casa. Em Espanha o fuso horário adiciona uma hora à hora de Marrocos o que significa que já eram perto das 20 h quando finalmente conseguimos sair do porto.
Primeira paragem para abastecer as nossas barrigas uma vez que no barco só havia batatas fritas e refrigerantes (eu ainda consegui 2 latinhas de cerveja mas foram das ultimas) arrancamos de punho trancado em direção a Sevilha.
Não gosto de andar de noite mas parece que à vinda de Marrocos viajar para Portugal de noite é uma cena recorrente.
A ultima paragem em grupo foi em Ayamonte para abastecer as montadas, fazer as despedidas e confirmarmos entre todos que a viagem apesar dos contratempos tinha sido épica e que sem dúvida seria repetida em 2026.
* Baghrir ou Beghrir - panqueca consumida na Argélia, Marrocos e Tunisia. São pequenos, esponjosos e feitos com sêmola ou farinha. Quando cozidos corretamente ficam cheios de buracos.
** Rghaif ou Rghayaf - é um tipo de pastel ou massa de pão, típica de Magrebe. Pode ser servida depois de assada sem alterações e coberta com xarope de mel e manteiga ou pode ser recheada e tendida num pão especial.
*** Kafta ou Cafta - mistura de carne moída (carneiro ou boi são as preferidas mas, na Grécia, usa-se também a carne de porco), cebola picada, salsa ou hortelã também finamente picadas, cominho e canela moídos, pimenta-da-jamaica, sal e pimenta; deixar a mistura no fresco durante 1-2 horas para deixar que os sabores se misturem e que seja mais fácil trabalhá-la. Normalmente, fazem-se bolas, ovais ou achatadas, como as frikadeller da Dinamarca. Pode-se também dar a forma de salsichas (principalmente na Turquia) que são depois enfiadas num espeto para serem grelhadas.
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